quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Histórico obesidade e 6 meses após a bariátrica


Tudo começou quando em meados de 11 para 12 anos de idade, os genes da obesidade começaram a se manifestar. Sabiamente minha mãe logo me matriculou na academia, claro que era a minha vontade também. Ali começou a guerra de braços entre eu e a obesidade. Jovem, com a vida de estudante, conseguia dedicar-me intensamente às atividades físicas. Fazia dietas bem malucas, as quais resultaram em uma gastrite crônica e muitos efeitos sanfonas que só favoreciam a obesidade na luta.

Aos 17 anos, chegava a era do meu vestibular, que fase difícil na vida de qualquer adolescente! Abandonar a rotina de academia parecia o mais lógico, foi o que fiz. E isso somado aos hábitos nada saudáveis de vestibulanda dedicada e com a pressão em torno do que queria para o meu futuro, gerou o primeiro grande alarme em torno do excesso de peso. Neste momento também inicio o contato mais intenso do que hoje enxergo como gordofobia. Não ousem a pensar que isso é modinha, a gordofobia é real e maltrata e mata milhões de seres humanos diariamente.

Aí veio a era da universidade, mundo completamente novo e diferente do colegial. Estágios, militância, emprego e muitas desculpas para não ter tempo de dedicação a minha qualidade de vida (hoje entendo como egoísmo e omissão).

Em meio a isso veio, aos 23 anos, o câncer na tireoide. A casa não caiu, mas a ficha de que estava viva e que precisava viver intensamente sim! Após o período de tratamento, fiz o contrário do que deveria ter feito. Hábitos saudáveis pra quê?! Isso é coisa que a gente só vê nas novelas não é?! Entrei na fase do SIM. Sim para tudo, praticamente para qualquer convite.  Dedicação intensa aos compromissos profissionais, militantes e farristas; daí, mais uma vez, fui omissa comigo. Cuidar diariamente de mim parecia impossível e desnecessário.

 Não estou sendo cruel comigo, essa é a verdade: ou a gente cuida de si diariamente ou a saúde vem cobrar a conta de forma muito cara. Meu boleto chegou em forma de sintomas e resultados de exames no início de 2015. Sentia-me fadigada, não dormia mais tão bem. Sofria com a ausência de humanismo do mercado consumista e da sociedade diante dos obesos. Mesmo assim, em nenhum momento sentia-me um ser inferior, como a maioria dos obesos se sentem, além do que, eu e a felicidade sempre fomos grandes parceiras. Talvez por ser feminista e de ideologia socialista, criei uma casca de personalidade de proteção. Eu não permitia que ninguém me ferisse com a invasão ao meu individual que muitos fizeram, tinha a consciência de que a errada não era eu, nem adentrarei pra falar no potencial de serem invasivos que as pessoas tem. Porém, não posso negar, que quanto mais as pessoas exigiam que eu entrasse no padrão que elas queriam, mais eu resistia a querer entrar (ou voltar) ao padrão que elas queriam, sem se quer perguntar se eu queria ou podia. Como se ser obeso fosse uma questão de escolha, pobre ignorância.

Próximo a completar 29 anos, e já sentindo os transtornos físicos do grande sobrepeso, veio a orientação médica da minha linda endocrinologista, a qual sempre respeitou a minha relação com meu peso, era a hora de fazer a cirurgia bariátrica e mudar radicalmente. Caso contrário, a Síndrome Metabólica iria me causar, em breve, muitos transtornos. Assustada, passei 5 dias pensando no que fazer. Eu, também com meus preconceitos, considerava inútil a cirurgia, pois, ela não iria operar minha cabeça...quanta crueldade!

Falei com meus pares, achava que não iriam me apoiar, mas suas reações positivas fizeram eu perceber o quanto estavam preocupados com ela, minha obesidade. No dia seguinte ao do meu jantar de aniversário, momento de receber as boas energias que precisava pra ser forte, decidi pela cirurgia. Nocaute, a obesidade venceu!

Essa foi a melhor decisão que poderia ter tido. Passados 6 meses e 40kg. Tendo tido a disciplina que tive até aqui em seguir as orientações de todos os profissionais que me assistiram e, principalmente, seguido à orientação de minha consciência, sinto-me resgatada para a minha essência. E parem de pensar que isso se dá simplesmente ao fato de voltar a ter o corpo gostosão (quem viveu a era Linda-linda ou Rata irá compreender melhor)!

Quando a gente para e decide aceitar o novo, insere em sua rotina hábitos saudáveis e se tem como prioridade zero, muitas coisas boas acontecem, especialmente aquela de ter equilíbrio entre corpo, mente e alma. Essa é a minha era atual.


Poderia ter escrito muito mais, não tenham dúvida, mas fico por aqui com o agradecimento a todos e todas que me apoiaram nesses incríveis 6 meses. Deixo também minha devoção a São Bento. Deixo o meu incentivo a quem precisa voltar ou começar a acreditar na força que existe dentro de si. Deixo o meu agradecimento a 2015, não só pela mudança no estilo de vida, mas por tudo que fui capaz de executar, por todos os ricos momentos vividos com meus familiares e amigos... e, principalmente, por ter me permitido ser um ser humano melhor, mais maduro, mais leal aos meus princípios e ideologias. Feliz ano novo e feliz vida nova a quem optar por vida nova! 

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Lições de Raimunda Vogado

84 anos - Outubro 2015


Alguns poderiam dizer: - que pena, eu não posso dançar.

Mas ela disse: - sim, meu neto (Guilherme Abrahão) , eu quero dançar o meu carimbó!

Ahhh, minha avó Raimunda Vogado é muito linda e sempre nos ensina as melhores lições de vida!

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Radioiodoterapia X Alergia ao iodo

Por Lorena Abrahão

Quando alguém descobre que tem câncer na tireoide, costumo acalmá-lo o máximo que consigo. Isto porque entrar em pânico não ajuda e ainda prejudica o tratamento. Lembro que meus médicos diziam que o meu perceptível otimismo era o remédio principal no meu tratamento. Outra, porque de fato a ampla maioria dos pacientes tem a cura da doença. Até aqueles tipos de células mais complicadas são tratadas com eficiência, o que não significa que não há vítimas fatais, mas todos os estudos que já li apontam que estas são raras.
Então você pergunta, mas não é difícil enfrentar o câncer na tireoide?
Sinceramente?! Enfrentar o câncer é a parte menos difícil, e logo ela passa.
A questão principal é como conviver sem a tireoide. Aí sim, vem a parte difícil. Em muitos momentos a medicina e a farmacologia dizem que você vai repor o hormônio e ponto, tudo ficará bem. Só que as coisas não são bem assim. Quem já a retirou bem sabe que fazer a reposição hormonal não é tão simples assim. Implica, especialmente, o autoconhecimento. Conhecer o próprio corpo e seus sinais. Estar atento ao momento de realizar novos exames e alterar a dosagem, em um ano ela pode alterar várias vezes. E a cada período grande sem alteração, alguns sintomas sentimos e só nós entendemos. Quem nunca se deparou emocionado, muitas vezes por nada, ao final do dia que esqueceu de tomar o comprimido?!
Não paramos por aí, vejam o meu caso. Possivelmente, o processo de radioiodoterapia tenha sensibilizado meu mecanismo de defesa e, em 2012, iniciei um intenso quadro alérgico que a cada ano aumenta mais a minha lista de restrição alimentar, medicamentosa e de produtos cutâneos. Costumo brincar que ao ar ainda não tenho alergia! O iodo é quem ganha na lista, não pela intensidade em si, pois todas são intensas, mas por ele estar presente em vários alimentos, remédios e produtos cosméticos. Alergia ao iodo é muito rara e ainda não encontrei nenhum estudo que a relacione com o tratamento com iodo radioativo, mas a avaliação da minha alergista é que ambos estejam relacionados. Assim como a minha avaliação, pois se tem uma coisa que o câncer na tireoide causou, foi intensificar o meu autoconhecimento e isso é uma das partes lindas!
Não quero deixar ninguém triste, muito menos dizer que isso vai acontecer com todos. Felizmente não, se fosse acontecer em todas as leituras isso constaria. Eu fui premiada e se pudesse encerraria em mim esta premiação do tratamento. Mas há algo relevante que ainda não comentei, o papel de cada indivíduo no tratamento. Meu otimismo foi tamanho que comemorar a vida virou regra e cumpri muito bem essa tarefa, porém, não a fiz da forma mais saudável possível. Saí desenfreadamente consumindo bebidas alcoólicas e alimentos nada saudáveis. Com a vida profissional sempre mais puxada, atividade física não apareceu como prioridade na lista por muitos anos. Acho que esta combinação pode ter contribuído para que o choque de iodo desencadeasse o transtorno que me causa todos os dias. Sim, ter alergia a iodo causa transtornos diários. Há sempre um risco e um medo, o qual aumenta a cada consumo de algo novo.
Então, meus caros, se há um conselho que posso dar é o de adotares os hábitos saudáveis e tê-los como regra na vida após descoberta de um câncer, seja ele qual for. O certo mesmo é ter este estilo de vida antes da descoberta, mas como esta não é a realidade, fica o meu apelo para que você esteja aberto ao novo e faça dos hábitos saudáveis um estilo de vida, assim como finalmente hoje posso dizer, orgulhosamente, que tenho!

terça-feira, 2 de junho de 2015

A Decisão Pela Bariátrica

Sou obesa desde sempre.
Em alguns períodos sob controle, mas sempre, obesa.
Tarefa nada fácil de ser.

A obesidade, de certa forma, sempre me oprimiu. Ora pela frágil auto-estima, ora pela reforçada auto-estima, como avalio ter sido meu melhor mecanismo de defesa. 

Minha relação com a obesidade, antes da decisão, se resume no texto De quantos quilos é preciso para ser feliz. Acontece que o peso de chegar perto dos 30 anos chegou, e ele pesa muito mais que meus 118kg atuais.

Dos preconceitos que sofri, dentro e fora da própria casa, acho que não vale as minhas palavras. Todos eles foram engolidos, alguns entalados por um tempo, mas todos excretados.

Três dias após completar 29 anos, apresentei resultados de exames de rotina a minha endocrinologista, das pessoas mais humanas para exercer a medicina. Ela quem sempre respeitou meu tempo e minha relação com a obesidade, disse que chegou a hora de radicalizar Ou muda, ou consequências que já começaram a aparecer, irão aumentar e complicar. O medo de ser diabética me apavorou!

E eu, que sempre compreendi que na vida é preciso saber a hora de dar curva, entendi que era a hora de enxergar a obesidade como doença e então engolir o orgulho em ser gorda, e emagrecer.

Não se trata de mais um dos tantos métodos tentados desde meus onze anos. Cirurgia Bariátrica vem aí... 

sábado, 2 de maio de 2015

De quantos quilos é preciso para ser feliz

Por Lorena Abrahão
setembro de 2013


Só uma mulher acima, quer dizer, bem acima do peso padrão é capaz de entender a intensidade deste questionamento.

Pois é mesmo verdade que há os que acreditam que gorda é sinônimo de inFELICIDADE. E o que é pior, há casos em que é a pura verdade.

Me chamo Lorena, 27 anos e cheguei na casa dos 100kg. Desde sempre tive tendência para engordar. Para uns isto quer dizer que sempre comi muito e nunca fiz atividade física. Disciplinada?! Hum...bem longe das gordinhas.

Por alguns anos, vivi o lado mais fácil da pressão da sociedade, para a sociedade. Fazia dos mais diversos sacrifícios para manter-me... como dizer?! Gostosona. Sim, era isso que eu era. A felicidade na minha vida ainda era relativa. Acho que resumia-se a “ficar” com o carinha que eu queria quando queria. Ir à casa de praia vez em quando. E não sei o que mais.

Só sei que felicidade era muito pouco para o estado de espírito que hoje consolido na minha vida.

Sendo a vida uma caixinha de surpresas, aos 23 anos submeti-me a uma cirurgia de relativa emergência, por ter sido diagnosticada com câncer na tireóide. Não, meu mundo não caiu. Aliás, até acho que caiu, mas não passou nem mesmo de 24 horas. Cirurgia, radioiodoterapia, isolamento, reposição hormonal, mudanças fisiológicas diversas...um turbilhão de coisas.

Onde mais houve um turbilhão de mudanças, foi na ordem de prioridades das coisas, da vida. Aos poucos percebia que a vida tinha um sentido bastante diferente do que imaginava (pouco imaginava) antes.

A retenção de líquido começou a me assustar. Os quilos foram somando-se, somando-se, somando-se. 30kg a mais na balança. Todos notavam. O mais curioso é que aqueles quilos pouco importavam para quem estava descobrindo um novo sentido.

Não virei evangélica, nem autora de auto-ajuda. Mas o segundos, os minutos, as horas...o tempo, a vida tornaram-se tão mais intensos. De uma forma que as mudanças estavam permitindo-me uma segunda chance. Um recomeço de vida a ser vivida com bem mais intensidade.

O “não” passou a ser a palavra menos pronunciada. Comecei a dizer “sim” e este sim não era para quem esperava por uma resposta, era um sim para a vida, para as coisas a serem vividas. O tempo começou a apresentar-se curto demais, pois, muita coisa eu tinha (e tenho) para fazer.

Ta ficando muito dramático o desabafo?! Desculpem-me, não era esta a intenção.

Quis apenas falar para o mundo que ser gordinha, como intitulo-me, é o que menos incomoda-me na vida. E que é muito chato quando perguntam o por quê de não emagrecer! Ainda mais sendo eu o suficiente educada para não devolver com as respostas mais homéricas possíveis.

Se você estiver acima do peso estipulado como ideal e quiser elimina-los: elimine-os, mas faça isso por você e que seja prazeroso. Se não quiser, seja apenas feliz, mas não esqueça que a felicidade é efêmera demais para depender apenas de um item.

É óbvio que ter corpo e mente saudáveis são essenciais para viver com qualidade, mas isso nem todos conseguem. Sabem a gordinha que vos escreve?! Ah, ela consegue ter a alma leve e a auto-estima pesadíssima, de tão pesada transborda de alegria e transborda amor próprio ao ponto de conseguir compartilha-lo com muitos ao seu redor.

Então, vos deixo-lhes com os seguintes questionamentos:



É preciso estar magra para estar de bem com a vida?
Não estar de bem com a vida 24h/dia, 365d/ano, todos os dias de sua vida é o fim dos tempos?
Só as mulheres magras conseguem ter prazer e dar prazer ao fazer sexo? Você ficará sem resposta se for daqueles que acha que gordas não fazem sexo.
De quantos quilos você precisou para formar-se na universidade e conseguir um bom emprego?
De quantos quilos você precisou para conhecer o amor de sua vida?
De quantos quilos você precisa para considerar-se o ser mais incrível do mundo?
De quantos quilos a gente precisa para ter um bom convívio familiar?
De quantos quilos você precisa para se respeitar e respeitar as pessoas?
De quantos quilos a gente precisa para conseguir ter alma e consciência leves?
De quantos quilos você precisará para atingir a realização dos seus sonhos?


E por último: De quantos quilos é preciso para ser feliz?!

Publicado em: http://mulheresemmarcha.blogspot.com.br/…/de-quantos-quilos…