Tudo começou quando em meados de
11 para 12 anos de idade, os genes da obesidade começaram a se manifestar.
Sabiamente minha mãe logo me matriculou na academia, claro que era a minha
vontade também. Ali começou a guerra de braços entre eu e a obesidade. Jovem,
com a vida de estudante, conseguia dedicar-me intensamente às atividades
físicas. Fazia dietas bem malucas, as quais resultaram em uma gastrite crônica
e muitos efeitos sanfonas que só favoreciam a obesidade na luta.
Aos 17 anos, chegava a era do meu
vestibular, que fase difícil na vida de qualquer adolescente! Abandonar a
rotina de academia parecia o mais lógico, foi o que fiz. E isso somado aos
hábitos nada saudáveis de vestibulanda dedicada e com a pressão em torno do que
queria para o meu futuro, gerou o primeiro grande alarme em torno do excesso de
peso. Neste momento também inicio o contato mais intenso do que hoje enxergo
como gordofobia. Não ousem a pensar que isso é modinha, a gordofobia é real e
maltrata e mata milhões de seres humanos diariamente.
Aí veio a era da universidade,
mundo completamente novo e diferente do colegial. Estágios, militância, emprego
e muitas desculpas para não ter tempo de dedicação a minha qualidade de vida
(hoje entendo como egoísmo e omissão).
Em meio a isso veio, aos 23 anos,
o câncer na tireoide. A casa não caiu, mas a ficha de que estava viva e que
precisava viver intensamente sim! Após o período de tratamento, fiz o contrário
do que deveria ter feito. Hábitos saudáveis pra quê?! Isso é coisa que a gente
só vê nas novelas não é?! Entrei na fase do SIM. Sim para tudo, praticamente
para qualquer convite. Dedicação intensa
aos compromissos profissionais, militantes e farristas; daí, mais uma vez, fui
omissa comigo. Cuidar diariamente de mim parecia impossível e desnecessário.
Não estou sendo cruel comigo, essa é a
verdade: ou a gente cuida de si diariamente ou a saúde vem cobrar a conta de
forma muito cara. Meu boleto chegou em forma de sintomas e resultados de exames
no início de 2015. Sentia-me fadigada, não dormia mais tão bem. Sofria com a
ausência de humanismo do mercado consumista e da sociedade diante dos obesos. Mesmo
assim, em nenhum momento sentia-me um ser inferior, como a maioria dos obesos
se sentem, além do que, eu e a felicidade sempre fomos grandes parceiras.
Talvez por ser feminista e de ideologia socialista, criei uma casca de
personalidade de proteção. Eu não permitia que ninguém me ferisse com a invasão
ao meu individual que muitos fizeram, tinha a consciência de que a errada não
era eu, nem adentrarei pra falar no potencial de serem invasivos que as pessoas
tem. Porém, não posso negar, que quanto mais as pessoas exigiam que eu entrasse
no padrão que elas queriam, mais eu resistia a querer entrar (ou voltar) ao
padrão que elas queriam, sem se quer perguntar se eu queria ou podia. Como se
ser obeso fosse uma questão de escolha, pobre ignorância.
Próximo a completar 29 anos, e já
sentindo os transtornos físicos do grande sobrepeso, veio a orientação médica
da minha linda endocrinologista, a qual sempre respeitou a minha relação com
meu peso, era a hora de fazer a cirurgia bariátrica e mudar radicalmente. Caso contrário,
a Síndrome Metabólica iria me causar, em breve, muitos transtornos. Assustada,
passei 5 dias pensando no que fazer. Eu, também com meus preconceitos,
considerava inútil a cirurgia, pois, ela não iria operar minha cabeça...quanta
crueldade!
Falei com meus pares, achava que
não iriam me apoiar, mas suas reações positivas fizeram eu perceber o quanto
estavam preocupados com ela, minha obesidade. No dia seguinte ao do meu jantar
de aniversário, momento de receber as boas energias que precisava pra ser
forte, decidi pela cirurgia. Nocaute, a obesidade venceu!
Essa foi a melhor decisão que
poderia ter tido. Passados 6 meses e 40kg. Tendo tido a disciplina que tive até
aqui em seguir as orientações de todos os profissionais que me assistiram e,
principalmente, seguido à orientação de minha consciência, sinto-me resgatada
para a minha essência. E parem de pensar que isso se dá simplesmente ao fato de
voltar a ter o corpo gostosão (quem viveu a era Linda-linda ou Rata irá
compreender melhor)!
Quando a gente para e decide
aceitar o novo, insere em sua rotina hábitos saudáveis e se tem como prioridade
zero, muitas coisas boas acontecem, especialmente aquela de ter equilíbrio
entre corpo, mente e alma. Essa é a minha era atual.
Poderia ter escrito muito mais,
não tenham dúvida, mas fico por aqui com o agradecimento a todos e todas que me
apoiaram nesses incríveis 6 meses. Deixo também minha devoção a São Bento.
Deixo o meu incentivo a quem precisa voltar ou começar a acreditar na força que
existe dentro de si. Deixo o meu agradecimento a 2015, não só pela mudança no
estilo de vida, mas por tudo que fui capaz de executar, por todos os ricos
momentos vividos com meus familiares e amigos... e, principalmente, por ter me
permitido ser um ser humano melhor, mais maduro, mais leal aos meus princípios
e ideologias. Feliz ano novo e feliz vida nova a quem optar por vida nova!
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