quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Radioiodoterapia X Alergia ao iodo

Por Lorena Abrahão

Quando alguém descobre que tem câncer na tireoide, costumo acalmá-lo o máximo que consigo. Isto porque entrar em pânico não ajuda e ainda prejudica o tratamento. Lembro que meus médicos diziam que o meu perceptível otimismo era o remédio principal no meu tratamento. Outra, porque de fato a ampla maioria dos pacientes tem a cura da doença. Até aqueles tipos de células mais complicadas são tratadas com eficiência, o que não significa que não há vítimas fatais, mas todos os estudos que já li apontam que estas são raras.
Então você pergunta, mas não é difícil enfrentar o câncer na tireoide?
Sinceramente?! Enfrentar o câncer é a parte menos difícil, e logo ela passa.
A questão principal é como conviver sem a tireoide. Aí sim, vem a parte difícil. Em muitos momentos a medicina e a farmacologia dizem que você vai repor o hormônio e ponto, tudo ficará bem. Só que as coisas não são bem assim. Quem já a retirou bem sabe que fazer a reposição hormonal não é tão simples assim. Implica, especialmente, o autoconhecimento. Conhecer o próprio corpo e seus sinais. Estar atento ao momento de realizar novos exames e alterar a dosagem, em um ano ela pode alterar várias vezes. E a cada período grande sem alteração, alguns sintomas sentimos e só nós entendemos. Quem nunca se deparou emocionado, muitas vezes por nada, ao final do dia que esqueceu de tomar o comprimido?!
Não paramos por aí, vejam o meu caso. Possivelmente, o processo de radioiodoterapia tenha sensibilizado meu mecanismo de defesa e, em 2012, iniciei um intenso quadro alérgico que a cada ano aumenta mais a minha lista de restrição alimentar, medicamentosa e de produtos cutâneos. Costumo brincar que ao ar ainda não tenho alergia! O iodo é quem ganha na lista, não pela intensidade em si, pois todas são intensas, mas por ele estar presente em vários alimentos, remédios e produtos cosméticos. Alergia ao iodo é muito rara e ainda não encontrei nenhum estudo que a relacione com o tratamento com iodo radioativo, mas a avaliação da minha alergista é que ambos estejam relacionados. Assim como a minha avaliação, pois se tem uma coisa que o câncer na tireoide causou, foi intensificar o meu autoconhecimento e isso é uma das partes lindas!
Não quero deixar ninguém triste, muito menos dizer que isso vai acontecer com todos. Felizmente não, se fosse acontecer em todas as leituras isso constaria. Eu fui premiada e se pudesse encerraria em mim esta premiação do tratamento. Mas há algo relevante que ainda não comentei, o papel de cada indivíduo no tratamento. Meu otimismo foi tamanho que comemorar a vida virou regra e cumpri muito bem essa tarefa, porém, não a fiz da forma mais saudável possível. Saí desenfreadamente consumindo bebidas alcoólicas e alimentos nada saudáveis. Com a vida profissional sempre mais puxada, atividade física não apareceu como prioridade na lista por muitos anos. Acho que esta combinação pode ter contribuído para que o choque de iodo desencadeasse o transtorno que me causa todos os dias. Sim, ter alergia a iodo causa transtornos diários. Há sempre um risco e um medo, o qual aumenta a cada consumo de algo novo.
Então, meus caros, se há um conselho que posso dar é o de adotares os hábitos saudáveis e tê-los como regra na vida após descoberta de um câncer, seja ele qual for. O certo mesmo é ter este estilo de vida antes da descoberta, mas como esta não é a realidade, fica o meu apelo para que você esteja aberto ao novo e faça dos hábitos saudáveis um estilo de vida, assim como finalmente hoje posso dizer, orgulhosamente, que tenho!

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