É culturalmente consensual ter no ato de comer um dos
prazeres mais intensos.
Vale refletir também o caráter de socialização comportado
neste ato. Basta lembrar em torno do que está as festas de comemorações, os
encontros entre amigos, os primeiros encontros dos casais, a válvula de escape
do estresse... Corrijam-me se estiver errada, mas tudo, em torno do comer.
Por ser culturalmente consensuado, aliado a constante
correria multitarefária do dia-a-dia, pouco se reflete sobre o que, porquê, como, quando e quanto nós
comemos. Não, isso não interessa, isso é chato. Encerra-se o assunto logo
que vem em mente, mas acredito que todos, em algum momento, são assombrados com
esses questionamentos.
Daria pra escrever muito mais sobre os padrões e
comportamentos alimentares, acho que vale posteriormente fazer um texto
alinhando-o com a lógica do capitalismo. Mas a intenção neste momento é a de compartilhar
os benefícios que o processo de reeducação alimentar proporcionou em minha
vida.
Após um ano e meio de hábitos novos, digo que melhor que
comer, é mesmo viver!
____________________
Antes da cirurgia bariátrica (Bypass), a síndrome metabólica
gerada pelo quadro de obesidade mórbida e crônica, deixou praticamente todos os
meus índices alarmantes. Hoje tenho plena consciência do quanto eles prejudicavam
a minha qualidade de vida e já limitavam meu dia-a-dia, na época enganava-me
acreditando que o importante era estar viva e feliz.
Na tabela abaixo, o quadro comparativo com alguns índices.
Junho 2015
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Janeiro 2017
|
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Peso total
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120kg
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66kg
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Peso em massa magra
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53%
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72%
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Peso em gordura corporal
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47%
|
28%
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IMC
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43,5 kg/m²
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24 kg/m²
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Glicose
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91 mg/dL
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79 mg/dL
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Teste de Tolerância à
Glicose – 3ª análise 120’
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214 mg/dL
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Fora de risco/ Não necessária
a dosagem
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Insulina
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37,74 mIU/mL
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2,7 mIU/mL
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Colesterol Total
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155 mg/dL
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129 mg/dL
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Triglicerídeos
|
100 mg/dL
|
70 mg/dL
|
Em primeira análise, as taxas sanguíneas não estavam tão
alarmantes, mas e se eu continuasse com o mesmo estilo de vida, qual seria o
teor do texto que estaria escrevendo agora? Provavelmente, sobre dicas de como viver com a diabetes. Ta aí, foi
esse o meu terror, o diagnóstico inicial dessa doença que vitimiza minha
família, portanto conheço a dor do seu começo, meio e fim quando não tratada
como deve ser. Diga-se de passagem, tarefa muito difícil.
Não é novidade que todos morreremos um dia, mas ter
consciência que seus hábitos estão a facilitar que este dia chegue, seria o quê
senão um suicídio a médio e longo prazo?! Compreendi ser a hora de fazer uma
curva radical na vida. E fiz da cirurgia bariátrica o freio necessário para não
continuar na linha reta que seguia (ou me arrastava). Bombardeio de
informações. Vontade, muita vontade de iniciar o processo de envelhecimento de
forma saudável. Ter uma vida saudável, que alinhava uma boa alimentação,
prática regular de atividade física e até mesmo sair pra dar uma corridinha no
domingo de manhã, fazia parte de um tímido e forte sonho ou exemplo de vida a
seguir.
Os seis primeiros meses foram de total disciplina, não
fáceis, mas também menos difíceis que imaginava. Depois vieram os hábitos,
aquilo que já fazemos no automático, tipo preparar sua bolsa térmica
diariamente com pelo menos três das suas seis ou sete refeições do dia; comer
seu lanche em meio a qualquer reunião; acordar cinco horas da manhã todos os
dias pra malhar; dizer não para a maioria dos convites para sair no sábado a
noite porque domingo de manhã é dia de treino de rua e seu corpo sente uma
tremenda falta se não for; e muitas outras coisas que não garantem uma vida
eterna (claro que não é essa a pretensão), mas que garantem maior
autoconhecimento e um melhor sentido no que é estar viva e com muita disposição
para viver. Com cuidado pleno sobre meu corpo, minha alma e meu equilíbrio!
Comer as comidas de fácil acesso, aquelas geralmente mais
prejudiciais, é gostoso e tesudo; mas não precisamos ter a cada refeição um
orgasmo. E mais, dá pra descobrir também ser tesudo, comer algo funcional,
aquela comida que não entra no seu organismo só para saciar seu prazer, mas
para dar funcionalidade às partes de seu organismo.

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