terça-feira, 7 de abril de 2020

As dores das gentes do mundo também são minhas

Por Lorena Abrahão
Em 07/04/2020

Aos 11 anos ou um pouco menos, ao chorar no colo e abraço da minha mãe, na cadeira da cozinha, meu pai chegou e, ao se deparar com a cena, naquele que hoje imagino ter sido um dos mais difíceis momentos de sua vida, disse emocionado:

- Ela já tem sentimento, já entende as coisas!

Olhou para minha mãe, com olhares de pai e mãe que não consigo explicar. Choro e conforto trocou de colo, nunca esqueci aquela frase.

O sentimento a que ele fez referência, era uma profunda tristeza misturada com intensa preocupação, pela tragédia que aconteceu em nossa fonte de sustento à época.

Por outro lado, meus apelidos pelos vários locais que passei ou sou, são relacionados a esse tal sentimentalismo: "Laurinha", em menção à personagem do Carrossel 'ah, ele é tão romântico', frase que docemente Laurinha suspirava; "Emo", por chorar por tudo (!); "Banana chorona" por chorar ainda mais por todos os tudos. Por chorar dores que o mundo humano costuma ensinar que não são minhas, mas que nunca consegui e nem me esforcei para a dor do outro não ser minha dor também.

Se o outro é lá de longe de mim, eu oro.
Se há um meio de intermédio, eu ajo.
Se as dores são ocasionadas por uma culpabilidade coletiva, tentei me dedicar a coletivos nos quais, juntos, tentávamos ser mais fortes e,  de alguma forma sempre somos, mesmo que em pequenas ações.

Como digo sempre, o que é pouco para mim, pode ser um muito para alguém. Assim sempre, naturalmente, me construí enquanto pessoa desde meus 11 anos, fosse num choro de criança; fosse num "Projeto Ceará", 1998 - auge da Seca no Nordeste - jovens crianças do IAGP, em mutirão, organizamos e levamos vários poucos de vários alguéns, salvo engano pelo tempo, transformado em 1,5 tonelada de alimentos para o povo do Sertão. Quando adulta, descobri, que naquela época, Betinho já levava ao Estado um fruto do sentimento de gentes que sofrem as dores das outras gentes. O "Projeto Fome Zero" virara uma política de governo, o qual, hoje, já é política de Estado (ninguém tira, somente a fome, quando acabar), o "Bolsa Família".

A solidariedade, a empatia são um ciclo que se fortalecem também como uma força viral e pandêmica. Com isso, alivio um pouco a aflição deste momento de Pandemia, quando o mundo quase que para - assim já apontam os estudos geofísicos - a rotação da Terra está mais lenta com o silêncio da Quarentena.

Cada um de nós, em nosso direito natural e legal de livre-arbítrio, podemos escolher qual ator social ser. Eu, por exemplo, não consigo sair de casa para a prática concreta da caridade material como fez aquela criança de 11 anos, a prática que ampara em momento sublime os muito necessitados e que tem fome. Porém, nenhum de nós, estamos isentos dessa dor do mundo.

Para alguns estou em pânico.
No meu íntimo, entendo estar o que sempre fui, uma menina forte que sofre as dores do mundo, e, junto com isso, sofre a aflição pelos seus e por si, pois, 'na linha que nunca termina', na vida, como diria Leminski (meu poeta favorito), viver cada encarne é fortuna que nunca termina.

Meu entendimento, é de que dentro das minhas possibilidades e, principalmente, dentro da fé que sempre foi meu sustento e escudo, me cabe a dedicação ao meu "distanciamento social", como forma de sobrevivência e do não aumento da curva pandêmica. Esta última, como instrumento que abranda as gentes do mundo ao encontro do antídoto eficaz ao COVID-19.

Antídoto que imagino não conter em seringas com vacinas, mas no fundo do inconsciente da alma de cada ser.





sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Em harmonia



Um dia ela anda, outro ela corre.
Um dia ela nada, outro ela não faz nada.

Só não sabe ficar parada.

Um dia ela acredita, outro ela se desanima.
Um dia ela ferve otimismo, outro ela só se fecha em reencontro.

Só não desiste.

Tem tempos que as coisas ficam difíceis.
Tem tempos que as coisas ficam calmas.
Como a alma gosta de ser.

Tem tempos que nada entende.
Sabe que se entende é porque de nada compreendeu.

Tem poucos dias que os olhos não brilham,
Esses suficientes para se repaginar, reprogramar, recomeçar.

Fazer o que for preciso.

Só não deixar de seguir.

Seguir na linha que nunca termina com os erros e acertos necessários para viver em harmonia.

Ela só não sabe parar.

Lorena Abrahão
Fevereiro 2019

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Um Feliz Aniversário [Ano III - Década IV, bem-vindo!]

Que bom que a gente muda. Que bom que a vida é cíclica. Que bom que a gente confia em quem nos conduz. Que bom olhar pra trás e ver que tudo valeu a pena.

Não foram qualquer palavras, foram cirúrgicas. Nem qualquer gestos, tudo muito cheio de simbolismo.

Não é vaidade, mas muita gratidão a cada pessoinha que fez meu dia especial desse jeito.

Beijo em cada coração e muita força e fé na vida sim, porque se não for pra viver, tem sentido não estar nessa vida!





quinta-feira, 15 de março de 2018

Não foi só Marielle quem morreu

Não foi só Marielle quem morreu.
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Cada uma de nós levamos um tiro.
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Eles querem calar a nossa voz.
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Querem que o Estado violento continue a governar com suas milícias.
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Querem dizer que protegem a democracia.
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Mas matam a favela todo dia.
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Marielle não se calou.
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Marielle defendeu todos e todas nós.
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Ativista. Mulher. Cheia de conteúdo e resistência.
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Executada.
Executada.
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Mas como disse Marielle, é do asfalto que brotam as rosas de resistência.
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Hoje rosas de sangue, com o teu, e nosso sangue, Marielle.
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Mas há sim de brotar rosas de amor desse chão, não importa quanto tempo passe!
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Segue na tua luz.
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Deixa que a gente segue lutando por um lugar melhor!

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Nosso soneto

Soneto da Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Moraes, "Antologia Poética", Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960, pág. 96.
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2007 - foto preferida
Ainda muito jovem dediquei, em uma espontânea jura de amor, este soneto do Vinicius ao meu pai. Versos que resumem nosso amor, e hoje, mais do que nunca, no auge da fragilização de sua vida, o releio e emociono-me por perceber quão intenso vivemos estes versos até aqui.


Minha vontade real é a de o colocar no colo, rir meu riso e impedir seu pranto; mas sei que a dor é de cada um e o tempo de cada coisa é o tempo delas, não meu. Sendo assim, faço a minha parte, de o colocar no colo e dividir seu pranto. E entre falhas, tropeços e acertos, sigo atenta de tudo ao nosso amor, meu pai, meu grande amigo e que hoje, mais do que nunca, meu filho. 

domingo, 24 de dezembro de 2017

Abre teus braços e alegra-te

Abre teus braços e alegra-te

Não importa quão pesado o teu fardo 
Abre teus braços e alegra-te

Não importa o tamanho da ferida
Quanto durou para sarar
sua dor e suas marcas
Abre teus braços e alegra-te

Não importa o que a vida tenha te levado
Pessoas, dores, amores
Abre teus braços e alegra-te

Não importa que tamanhos tu te sintas
diante do universo
Quão pequeno, quão não importante
Abre teus braços e alegra-te

Não importa quais feridas criaste 
em outros seres
Quão duras tu te foste
Abre teus braços e alegra-te

Não importa se derramaste lágrimas
e, até, se ainda derramas
Abre teus braços, alegra-te

Se caiu e tiveste que levantar
Se caiu e novamente levantou
Se precisou repetir isso todos os dias 
os dias todos da tua vida

Alegra-te na vida
Alegra-te em vida
Alegra-te pela vida
Alegra-te para a vida

Alegrar teu coração
não é recompensa
é fé, esperança e maestria

Para viver bem
é preciso alegrar
em todos os lírios e dragões
que em teu caminho cruzar

Não importa, nada importa

Abre teus braços e alegra-te, à vida

(via Lorena Abrahão)

terça-feira, 21 de novembro de 2017

A casca e o que é belo

Por Lorena Abrahão

O corpo é só o corpo

A casca, a matéria, o corpo.

O que te faz bonito?


Tuas curvas, teu tom, teu cheiro?

Não.

Mas é preciso dele, do equilíbrio

Dele, com o que é belo.


Onde está o belo?

Na essência de teu ser, de tua alma?

Na elasticidade do movimento entre

pancada, queda e reerguer?

No sorriso que tua alma carrega

e que transpassa pela tua casca?

Na leveza diante a dureza da vida?

No remover de cada pedra que

a tristeza tenta colocar no teu coração?


Quebra tuas conveniências

teus tabus

deixa o belo se sobressair do que te endurece

Deixa a vida

Deixa o amanhã cuidar de si mesmo

Tira o peso de teus ombros que te enfeiam



Deixa leve tua alma que é bela